Mau comportamento no animal nem sempre é desobediência

Mau comportamento no animal nem sempre é desobediência

Quem já teve ou tem um animal de estimação sabe que evitar ou contrariar os maus comportamentos é uma das principais preocupações dos tutores. Contudo, para se saber como agir, é fundamental perceber que estes comportamentos são frequentemente uma resposta emocional, e não um ato de desobediência. Um artigo assinado pelo médico veterinário Nuno Carmo.

Os animais não falam, mas sentem, e é através das atitudes que demonstram as suas inseguranças, medos e dificuldades de adaptação. Alterações de comportamento como ladrar de forma contínua, destruição de móveis ou outros objetos, isolamento, agressividade, perda de apetite, inquietação ou comportamentos compulsivos de higiene - sobretudo no caso dos gatos - são frequentemente sinais de que algo não está bem.

E relatos como “ele antes não era assim”, “nunca roía nada”, “não ladrava”, “era sociável”, indicam que algo mudou, pelo que é importante perceber o que poderá ter despoletado estas alterações comportamentais.

Os animais interpretam o ambiente de forma diferente dos humanos, especialmente perante estímulos desconhecidos, que para nós são banais. Não dominam as regras, mas se estas lhes forem apresentadas de forma consistente, eles vão aceitar e cumprir. 

Os animais não sabem o que é um elevador ou um carro, assustam-se com ruídos estranhos, como obras, buzinas, trovões ou fogo de artifício que, apesar de fortes, são inofensivos para eles. Não percebem que as idas ao veterinário são importantes para a sua saúde ou que um novo membro na família não é um inimigo. E, acima de tudo, não pensam da mesma maneira que os donos, por isso não entendem que as ausências durante o dia não são abandono. Os animais gostam, reconhecem e reagem favoravelmente a estímulos, a hábitos e a comportamentos padrão, pelo que tudo o que foge à rotina é interpretado como um sinal de perigo, deixando-os alerta. 

Os animais não sabem o que é um elevador ou um carro, assustam-se com ruídos estranhos, como obras, buzinas, trovões ou fogo de artifício.

E perante estímulos desconhecidos ou percecionados como ameaças, o organismo do animal ativa respostas fisiológicas associadas ao stress - frequentemente descritas como mecanismos de “luta ou fuga”. Estas respostas são involuntárias e têm como objetivo garantir a sobrevivência.
E se sentem medo, reagem! Fazendo com que comportamentos considerados “maus” não sejam, na maioria das vezes, atos de desobediência, mas sim reações emocionais a situações que o animal não compreende ou não consegue controlar.

Assim, para evitar estes comportamentos indesejados, é necessário ensinar os animais a adaptarem-se ao mundo onde vivem e à sua nova realidade e família. 
 
Aos donos é pedido paciência, persistência e foco durante o processo de treino. E isso implica ensinar as regras de forma consistente, através de experiências positivas e rotinas que transmitam segurança. Para complementar o processo, existem alguns truques que podem contribuir para o bem-estar emocional dos animais, ajudando-os a habituarem-se mais facilmente ao ambiente que os rodeia.
 
Assim, se sabe que o vai submeter a estímulos novos ou situações de maior stress, como uma viagem de carro, uma ida ao veterinário, mais tempo sozinho, ou se nota mudanças de comportamento no seu animal, pode recorrer a soluções calmantes naturais, sob orientação adequada, que podem ser pulverizadas no ambiente ou no próprio animal e que são capazes de o acalmar, reduzindo os níveis de stress, ansiedade e medo, de forma segura, sem sedar.

Aos donos é pedido paciência, persistência e foco durante o processo de treino. E isso implica ensinar as regras de forma consistente, através de experiências positivas e rotinas que transmitam segurança.

Contudo, tudo isto é um processo e um jogo de paciência e compreender o comportamento animal é essencial para garantir o seu bem-estar. Mais do que corrigir comportamentos, é importante identificar as suas causas e responder de forma adequada.

Cabe aos tutores observar, interpretar e orientar os seus animais com paciência e consistência, criando um ambiente seguro e estável. Afinal, aquilo que muitas vezes é visto como mau comportamento pode ser apenas um sinal de que o animal precisa de ajuda para se adaptar. 

Nuno Carmo, médico veterinário e consultor Pet Remedy

 Fonte: Sapo